II Encontro de Nova-sourienses em São Paulo (2017)

Tempo fechado e com previsão de chuva. Uma ótima notícia para quem é de Nova Soure, na Bahia, e está em Nova Soure. Uma péssima condição da natureza para quem é de Nova Soure, está na capital paulista e vai para o segundo encontro festivo dos conterrâneos que moram em São Paulo.

Tudo já estava pronto no dia, pela manhã: local enfeitado, mesas e cadeiras arrumadas, palco pronto e sistema de som a postos. Os dois mestres de cerimônia chegaram quase antes de todo o mundo: eu, Carlos Sílvio, apresentador do programa Paiaiá na Conectados (Rádio Conectados, da Funsai), e Evandro Souza (Vandinho), locutor experiente e que coordenou sozinho o palco na festa passada, em 2016. Mais tarde, o igualmente locutor e conterrâneo Marcone marcou presença.

22279822_1468055539976275_2884040365075289475_nEu e Vandinho éramos o lado mais visível da equipe que fez o encontro se tornar possível. As meninas da bilheteria, por exemplo, eram o primeiro contato com o público e estavam sob o olhar tranquilo dos seguranças. E não demorou para que o público chegasse. Porém, o mau humor do clima causava certa preocupação.

O lado menos visível da festa e que cuidou de todos os detalhes, ainda que nem sempre estivesse longe da vista dos convidados, se materializou em um rapaz meio franzino, de camisa azul, semblante sério e que ia de uma ponta a outra do local do evento resolvendo coisas e atendendo pessoas. Fazia esse percurso de tempos em tempos, aparentemente sem cansar nenhuma vez, ainda que interrompido no caminho toda hora.

“A ideia surgiu há cerca de seis anos, quando estávamos em um churrasco promovido por mim e Dorival Soares, na Zona Sul de São Paulo”, disse o organizador e idealizador Tarcísio Alves, tão nova-souriense (nova-sourense, se preferir) ou baiano quanto Dorival, eu, Evandro e o público. “Naquele dia, eu e Dorival conversamos sobre a quantidade de pessoas de Nova Soure que moram aqui e que não se viam faz muito tempo”, acrescentou. “Ano passado, tomei coragem e organizei o primeiro encontro”, concluiu ele, desfazendo o rosto preocupado e rindo satisfeito com o sucesso deste segundo.

Oito de outubro: Dia do Nordestino. A data foi instituída em 2009 em homenagem ao centenário do nascimento de Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré, poeta popular, compositor e cantor cearense. Nada mais justo do que um encontro de nordestinos nesse dia.22339590_1468056893309473_2834512110638039196_o

Toda a divulgação foi anunciada como horário inicial da festa às 10h e finalizando às 22h. Os primeiros convidados começaram a chegar por volta das 10h15min. Parecia que ninguém se lembrava da chuva abundante no dia anterior e que já estava ameaçando.

É muito comum se usar por aí a expressão “só faltou chover” quando algo sai melhor que o planejado. E saiu. Só que, no II Encontro dos Baianos Nova-sourienses, não faltou chover. Por volta das 11h30min, quando a primeira atração, Rogério Drumont, se preparava para abrir o show, desabou um mundo de água. A chuva era tão forte que precisou a aparelhagem inteira de som ser desligada. E com a chuva vinha a dúvida: será que ela vai desencorajar as pessoas a saírem de casa? Ao meu celular chegava uma mensagem da jornalista, escritora, conterrânea e prevista para aparecer Elizandra Souza: “Carlos Sílvio, aqui em casa está chovendo forte. Aí tem área coberta?” Sim, tinha área coberta.22308928_1468062063308956_7445922796087632288_n

No livro “Os sertões”, Euclides da Cunha disse: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Por essa razão, sempre que se resolve exaltar o Nordeste e sua gente, usamos a famosa frase de Euclides da Cunha da seguinte maneira: “O nordestino é, antes de tudo, um forte”.

Pouco tempo depois, as pessoas chegavam como se tivessem combinado sair de casa juntas.  A fila para comprar ingresso era enorme. A cada atração, a cada encontro com os conterrâneos, ficava evidente o prazer de um povo. Foi assim quando eu encontrei a professora Vera Matos (ou Esmeraldina, como era conhecida no meu tempo de escola no Paiaiá).

22228552_1468049529976876_1246445339565125984_nDepois de a chuva passar sem fazer estrago e com o espaço já pequeno para tanta gente, Rogério Drumont abriu com uma sequência de músicas românticas. Em seguida, foi a vez da cantora Edleuza sacudir a galera, com uma voz potente e repertório que foi do axé music até o forró mais dançante. A música sertaneja também se fez presente na brilhante dupla Adelson Barros e Michel.

A atração mais esperada da festa era o cantor Frank Costa. Ele subiu ao palco e viu a galera cantar junto todas as suas músicas. Frank Costa, que chegou da Bahia, também na sexta-feira, com sua banda especialmente para o evento, saiu do palco com aplausos e dever cumprido. A presença dele foi para coroar uma festa que já podia ser comemorada antes mesmo do final.22279969_1468047976643698_3617706075661404130_n

O cantor Maruginho, que chegara da Bahia na sexta-feira para o evento, balançou a galera com seu forró tocado no tradicional teclado. Havia pessoas de praticamente todos os povoados ou vilarejos de Nova Soure e que residem aqui: Paiaiá, Raso, Melancia, Bela Vista, Beré, Seremão, Quixabeirinha, Monte Alegre, São Miguel, Conceição, Incó Miúdo, Tiosque, Cajueirinho, Cauê, Licurituba, Cabeleiro, Capim do Balaio, etc., assim como de cidades vizinhas a Nova Soure. Gente de Inhambupe, Cipó, Sátiro Dias e Olindina também participaram do grande encontro.

Em cada intervalo, entre uma apresentação musical e outra, via-se um povo batalhador em seu momento de tamanha felicidade, para a qual, se o cantor Zé Ramalho estivesse presente, com certeza cantaria estes versos: “Vocês que fazem parte dessa massa… Povo marcado, ê, povo feliz”.

Podia-se contemplar o bate-papo entre as pessoas que não se viam há muitos anos. Era como se um falasse para o outro: “Não sabia que você estava aqui em São Paulo”.22365478_1468052849976544_4848392405521032867_n

Vale ressaltar a presença de pessoas da nossa terra que desenvolvem trabalhos importantes na maior capital do Brasil. Pedro Cardoso é uma delas e tem um projeto fundamental. Há mais de trinta anos ele luta contra a “cultura da sujeira”. Já foi tema de reportagem da TV Cultura e escreveu um livro sobre o péssimo hábito que as pessoas têm de jogar lixo nas ruas. Atualmente vem batalhando contra as bitucas de cigarro. Nas palavras dele, “é importante as pessoas se conscientizarem que bituca de cigarro é reciclável”. Pedro Cardoso é cidadão do Raso e bacharel em Direito.

Representando a Melancia, além do cantor Maruginho, estava o escritor Darlan Zurc. Ele participou da 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2016, e foi considerado pelo jornal “Folha de S. Paulo” como “muito crítico” por conta de sua capacidade intelectual e literária.

Além disso, registre-se que, em 22 de agosto, estreou nos cinemas de São Paulo o filme chamado “Dara, a primeira vez que fui ao céu”, levando o nome de Nova Soure para o mundo. É um curta-metragem baseado na poesia de Elizandra Souza e foi filmado no vilarejo nova-souriense chamado Fazenda Cauê.22281733_1468045659977263_6318742746842466660_n

Elizandra Souza é cidadã de Nova Soure, radicada em São Paulo, jornalista, poeta, autora de vários livros e integrante do grupo Sarau das Pretas, que luta pelo empoderamento feminino e contra o machismo. A presença dela foi uma agradável surpresa no encontro. Todos ali ficaram atentos à sua poesia, declamada por ela própria no palco. “Foi desafiador e gratificante participar”, disse após a apresentação.

Para completar, outra surpresa. Mas é importante voltar no tempo para entender. Na década de 60, um rapaz veio para São Paulo de pau de arara numa viagem que durou doze dias. Começou a trabalhar como porteiro, e o dinheiro que seria para comprar lanches ia, na verdade, para comprar livros. Estudou na Universidade de São Paulo (USP) e foi ser professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com um acervo gigante de livros em sua casa (cerca de vinte mil), ele resolveu fazer algo no lugar onde nasceu. Afinal, ele saiu do Paiaiá, mas o Paiaiá nunca saiu dele.

22281945_1468058206642675_2558985132249762870_nEstou me referindo a umas das maiores personalidades do país, criador da maior biblioteca comunitária do Brasil (com cento e vinte mil livros): Geraldo Moreira Prado. Geraldo, que atualmente continua morando no Rio de Janeiro, surgiu do nada na entrada do evento, e, sem pensar duas vezes, eu comuniquei o fato a Tarcísio Alves: “Geraldo Prado está aqui, e eu vou levá-lo ao palco”. Sem pestanejar, Tarcísio me respondeu: “Geraldo? Você quem manda!”.

Antes de apresentá-lo, já com Geraldo no palco, li o meu poema “Natubeiros em festa” (veja o link) em sua homenagem e para sua emoção. Geraldo foi recebido com efusivos aplausos de quem vê nele um exemplo a ser seguido. Nordestino que não foge à luta e não tem medo de cara feia. Os aplausos também em sua saída, do palco, foi a coroação do evento. Obrigado, mestre Geraldo Prado!

O encontro dos baianos também teve um ato de solidariedade: em prol do guerreiro Samuel, foi feito um bingo para ajudar na cirurgia dele, que é filho de Joseli Alves dos Santos, do povoado São Miguel, e José Gomes Soares. Ele nasceu com uma doença rara chamada Síndrome de Berdon. A síndrome de Berdon pode surgir logo após o nascimento e envolve uma série de má-formações do trato digestivo (megacistos, microcólon e hipoperistaltismo intestinal), do trato urinário (alterações da forma e função da bexiga e hidronefrose) e, por vezes, do sistema cardiovascular. Ele precisa fazer um transplante multivisceral, que só é realizado em Miami, nos Estados Unidos.

O fim da festa se aproximava. Nas entusiasmadas palavras de Tarcísio, o veredito: wp-1507499060679“Foi um sucesso e superou minhas expectativas”. E, em nome de toda a equipe, vai aqui o meu mais sincero agradecimento a todos que compareceram. Esperamos fazer ainda melhor no próximo ano, dia 7 de outubro de 2018.

Até lá!

APOIO:

Programa Paiaiá na Conectados (Rádio Conectados, da Funsai), Dorival Soares, Jaquinho Noronha, Anderson Andrade, Cecília Gonçalves, Emilson Ramos, Caca Noronha, D&D Viagens, Vera Matos, Robson e amigos.

ORGANIZAÇÃO:  Tarcísio Alves.

Texto: Carlos Sílvio, colaboração do escritor Darlan Zurc

One comment

  1. Adorei rever meu amigos e conterrâneos de novas soures e região , obrigado por essa festa maravilhosa que foi tudo de bom que acabou tudo em paz e que venha o 3 encontro. Obrigado família da minha terra natal novas souriense. Claudinei do povoado cabeleiro.

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