Chute o pênalti, seo minino. Mas chute ao contrário, viu!

Estamos em época festiva do esporte mundial – o Rio de Janeiro sedia os Jogos Olímpicos, completando, na Era Moderna, 120 anos desde quando se fizera iniciar em Atenas, na Grécia.

Sabe-se que o propósito desses Jogos Olímpicos ou Olimpíadas é reunir a maior quantidade possível de Nações e de seus atletas, para demonstração de habilidades, força, estratégias e superação do homem pelo próprio homem nas suas possibilidades e realidades físicas.

Tudo indo dentro da normalidade desejada e prevista – sempre ao alcance dos anfitriões e organizadores. Deixando de lado, óbvio, o descontentamento do francês que alegara uso de macumba (no sertão é feitiço), por parte do nosso atleta da modalidade salto com vara, para ganho da medalha de ouro.

Mas, tomando como mote esses jogos olímpicos, me viera à lembrança de jogos outros, não com organização milionária como a de hoje em dia, mas sempre no propósito de congraçamento entre as pessoas – atletas ou não – em pequenas cidades ou localidades do nosso sertão baiano.

Aos domingos havia sempre um evento esportivo: ora corrida de cavalos – ainda não existiam vaquejadas como as de hoje; no máximo uma pega de gado, travada sempre durante a semana e, normalmente, como adjutório a um determinado criador de gado na caatinga – e, na maioria das vezes, partidas de futebol – jogo de bola como conhecido na época a que vou me reportar.

Às vezes a peleja era entre dois times do mesmo município ou cidade ou povoados; às vezes entre um time do povoado e outro da cidade e, outras vezes, entre times ou seleções de municípios – notadamente os vizinhos.

Era sempre um momento festivo. O deslocamento em carrocerias de caminhões, em basculante de caçambas, em bicicletas ou montados em vistosos cavalos, jegues ou burros e mulas (muares) era o normal naquela época.

Quem tinha seu belo e habilidoso animal de montaria se vangloriava e dava-se ao prazer de mostrar aos demais suas qualidades e habilidades. Algumas vezes até pegando parelha para ver qual pisava melhor em legítima marcha picada.

Pois bem, em conversa com um amigo a quem prezo muito, Wanderlei – professor de física da Universidade Federal da Bahia, já aposentado – tocamos a lembrar de feitos, façanhas e acontecimentos ocorridos no nosso sertão, lá em décadas distantes, alguns folclóricos, outros não, mas sempre com protagonistas do conhecimento dos dois amigos, converseiros dos domingos.

Somos nascidos em municípios bem próximos e com os mesmos aspectos climáticos, econômicos e culturais.

Da conversa surgira um episódio ocorrido no Município de Ribeira do Amparo, no nordeste baiano, quando de uma partida de jogo de bola (futebol) entre os times da Cidade e o de um Povoado do mesmo município, denominado Boa Hora.

Jogo marcado para um domingo qualquer, no final da década de 50, início da de 60 do século passado. O campo escolhido ou sorteado, não se tem notícia certa, fora o da Boa Hora.

Prevista uma festança, como era de se esperar.

Alugaram a empanada do Circo de Sopapo – um palhaço engraçado e dono do circo do mesmo nome – que estava armado numa das praças de Nova Soure, para cercar o campo com a finalidade de cobrar ingresso a quem quisesse assistir ao jogo.

Tudo dentro da normalidade; uma festança de respeito. Bandas de pífanos do Soure, de Cipó e da Ribeira, se revezavam em tocatas e dobrados desafiadores e animadores. Sanfoneiros e seus acompanhantes – zabumbeiro, pandeirista e triângulista se encontravam debaixo d’um pé de cajarana, enorme e frondosa, que ficava no centro da praça da localidade, tocando músicas da época, notadamente as do véio Lua, rei do baião – naqueles tempos não se falava no tal do trio elétrico fora da época do carnaval, até mesmo pelo fato dele ser ainda novidade, uma mera fubica com uns músicos tocando em cima, como se dizia.

Na bodega de Zé de Mané Danta estavam Manezinho de Juvêncio (conhecido como Manezinho Guarda) solando no seu cavaquinho; Nelito de Abdon, em sopro clássico na sua clarineta e Dantas (irmão de D Risol de Joel fiscal), dedilhando o seu violão de marcação, executando chorinhos e boleros e samba-canção, encantando aos nativos ou visitantes.

Os moradores do povoado enfeitaram suas casas com bandeirolas; as moçoilas se vestiram finamente com peças dos seus melhores guardas roupas. Os varões ostentando a casimira ou tropical inglês na cor branca — da melhor qualidade, a S129 — alguns em finos ternos outros em roupa completa – calça e camisão em mangas compridas e avantajados bolsos frontais um à altura do peito esquerdo e dois outros bem abaixo, já emparelhados ao cós das calças; outros, ainda, em roupas bem costuradas em tecido de mescla azul (mesclinha fabricado na Tecelagem Santa Helena do Rio de Janeiro), vendido na Loja de Chico do Adir, em Cipó.

Era chegado o momento da peleja.  Havia de serem providenciados: a marcação do campo a cal e a escolha de um juiz para apitar partida. O fechamento do campo, com a empanada, já estava resolvido,

Contrataram um juiz de futebol (árbitro) experiente da cidade de Ribeira do Pombal. Homem sério e respeitado, altura na casa de um metro e noventa centímetros e apelidado Tota Berro Grosso. Não dava lugar a que lhe pusessem dúvidas sobre o que apitava e apontava – ainda não se falava em cartões amarelo e vermelho, era tudo na base da bronca mesmo; o juiz passava uma carraspana no jogador desleal, dava-lhe uma nova oportunidade. Se tornasse a outra, botava pra fora de campo, expulsava-o do jogo e, ai daquele que resistisse em sair; nem precisava chamar a polícia, Berro Grosso mesmo o retirava, puxando-o pelo braço, e pronto.

Os dois times em campo, perfilados ao lado do Juiz – bandeirinhas não existiam naqueles tempos; o juiz era sozinho e soberano.

Discursos, do Prefeito de então e de um Vereador que representava aquele povoado, clamavam pela civilidade e respeito entre os jogadores e lembravam que o jogo era entre irmãos do mesmo município, não havia porquê se estranharem numa ou noutra jogada, por mais ríspida que fosse, afinal fazia parte do jogo.

Pontapé incial a cargo do Padre Emílio, que viera de Pombal para tal mister. Jogo começado. As torcidas se postaram uma em cada lado do campo para que não houvesse estranhamento entre um ou outro desavisado.

De início se depararam com um aparente impasse. Dois jogadores da Boa Hora não tinham chuteiras e iam jogar descalço. Berro Grosso não queria consentir; estava fora das regras do jogo. Discussões acaloradas: joga num joga; suspende a partida; manda Carlito de Toizinho, na sua Rural Willys, em Cipó pra tomar emprestado dois pares de chuteira. Houvera toda espécie de sugestão.

Mas, nada como contar com um pacificador. Alfredo Souza Cruz, professor leigo da localidade, homem cordato, intervira na discussão e argumentara: seo juiz, cancelar a partida não dá, né mesmo minha gente?! – como vamos devolver o dinheiro de quem pagou a entrada? Mandar ir buscar chuteiras em Cipó vai demorar muito, vai escurecer e fica ruim para jogar. Proponho o seguinte: tira as chuteiras de dois jogadores da Ribeira e, aí, fica tudo equilibrado. Ninguém fica melhor que ninguém.

Consultados os responsáveis pelos times, proposta aceita. Reiniciado o jogo.

Tudo corria normalmente: uma jogada de dribles daqui; um desarme dali; umoff side dacolá, mas o povo chamava mesmo era banheira: “seo juiz o meia esquerda deles tá na banheira, né pussive qui o sinhô num vá marcar”.

“Seo juiz, o sinhô tá cego é?! Num tá vendo que Zé de Marcolina deu uma bruta do tamanho do Hotel de Cipó em Chico do Foguete, não?!” E Berro Grosso, no seu natural, vociferava: esse minino vamicê s’aquiete mode eu num lhe botar pra fora. A otoridade aqui sou eu e quem marca bruta, mão, offissaide, saída de bola, corner, imprensada, sou eu viu?! Num tem essa de jogador marcar no lugar do juiz não.

Descanso de retorno para o segundo tempo do jogo que ainda apresentava placar sem gols. Não houvera substituições. Nenhum jogador se declarara cansado e não houvera necessidade de tirá-lo de campo pra botar outro e nem mesmo nenhum jogador queria sair.

Lá por volta dos quarenta e dois minutos do segundo tempo, o center four(centro avante) da Ribeira driblara o center ralph (beque central) da Boa Hora, e, já dentro da grande área o ralph esquerdo veio à toda e pimba: derrubara o atacante.

O juiz, implacável na marcação, embora um pouco distante de jogada, soprara o apito em alto e bom som, correndo e apontando para a marca do pênalti, feita a cal. Mas, para demonstrar a integridade que alardeava, conferiu se a marca estava mesmo com onze passos até chegar à linha do gol. Suas passadas eram longas e deu uma diferença de meio palmo pra menos, mas ele relevou.

“Foi pênalti”. “Num foi”. “Seo juiz, o cabra se jogou mesmo antes do ralphchegar perto dele. Tá mermo é querendo criar confusão num jogo tão bom e amigueiro que foi jogado até aqui”.

Pronto, instalada a desavença, haveria de ser encontrado um desfecho que não desagradasse os anfitriões e não deixasse os visitantes em desvantagem; afinal aquele era um jogo entre irmãos do mesmo município, não cabia terminar em confusão.

“Bate”.“Num bate”: diziam os capitães dos dois times.

Nestes meus mais de trinta anos que apito jogo de bola nunca marquei um pênalti pra num ser chutado. E né aqui na Boa Hora que vão me desfeitear, vociferava Berro Grosso.

Um torcedor ouvindo aquilo tudo – dizem que foi Zezé de Sinhazinha (José Brasil) – lembrou que lá fora do campo, montando seu vistoso cavalo manga larga marchador, castanho cacete, quase oito palmos de altura, estava um filho da Boa Hora, próspero fazendeiro e negociante de porcos em Alagoinhas, conhecido como Chico Pança, muito querido e respeitado na localidade e, dificilmente contestado por quem quer que fosse. Na verdade era um benfeitor, um formador de opinião.

Zezé, d’um fôlego só e esbaforido de tanto correr, alcança a bodega de Zé de Mané Danta e dissera: “chega seo Chico Pança, tão querendo brigar lá no campo por causa dum tal de pênalti e o juiz tá lá soprando qui nem cavalo brabo quando da pega pela primeira vez pra botar a sela. Acho que a coisa vai terminar em briga feia se o sinhô num for lá resolver isso”.

Chico Pança, embora de estatura mediana, não mais que um metro e sessenta de altura e de compleição avantajada, montou seu cavalo d’um só pulo. Ostentava na cintura um shimidt wesson 38 cano longo – na época era permitido o porte, desde que contasse com o registro nos órgãos de controle de segurança pública – um chapéu em couro de carneiro — com as abas quebradas ao seu gosto — vindo lá do Monte Santo, uma vara de pau ferro para açoitar o cavalo e botas de cano longo até quase engolindo os joelhos.

Adentrou o campo de bola, montado mesmo, e riscou seu ginete na pequena área, também marcada a cal. Levantara poeira pra todo lado, contudo sem tocar, de leve que fosse, em qualquer pessoa; era um cavaleiro experimentado e homem respeitador.

“Qui é isso ai mininos? Qui tá aconteceno aqui? Vamicês tudo gente grande, pais de famía, tão querendo brigar por uma besteira dessa?”

Seo Chico Pança, dissera Nicolau da Tapera, goal keeper (goleiro) do time da Boa Hora: este sujeito da Ribeira se jogou na área sem ninguém tocar num fio de cabelo dele. O táli do juiz, lá de longe, cansado, sem enxergar direito pur causa do sol, marcou um táli de onze passo contra nóis. Desse jeito, se chutar vai ser gol na certa.

De lá vem Berro Grosso e, sem saber com quem estava falando, se dirige ao cavaleiro: o sinhô tá fazendo o que aqui dentro do meu campo com este pangaré? Tá qui nem aquele povo do estrangeiro querendo jogar bola montado nos cavalos, tudo lalaiando pra riba e pra baixo, batendo na coitada com um pedaço de pau? Vamicê já ouviu falar em Tota Berro Grosso, do Pombal? Sou eu aqui, seu criado, viu?! Nunca marquei um pênalti pra num chutarem. Não é o sinhô que vai mudar minha história aqui nesse fim de mundo não, tá me entendendo?

Todos ficaram apreensivos com a ousadia de Berro Grosso, mas Chico Pança não dera ouvidos às bravatas do juiz.

Chamara a si a responsabilidade de resolver a situação e o faria, com certeza.

“Vamicês dois, chamando os capitães dos times para perto do seu cavalo, querem resolver mesmo?”

E o capitão da Ribeira: seo Chico Pança o ralph de vocês deu uma bruta da gota em Dudu de Antonio Félix que ele se estatalou quase em cima do goleiro. Foi onze passo mesmo. A gente tem o direito de chutar.

E Chico Pança: mininos, num vim aqui para conversa mole não, viu?! Quero resolver isso sem ter que me chatear e vou resolver agora.

É para chutar, né?! E aí já se dirigira ao juiz. E este, se achando autoridade, diz: claro; se eu marquei é pra chutar mesmo.

Pronto, minha gente, dissera Chico Pança, então tá tudo resolvido.

Quem é que vai chutar esta bola? Me apareça logo. Tenho mais o que fazer. Vou escutar chorinho, bolero e samba-canção lá na bodega de Zé de Mané Danta pra matar a saudade dos amigos, que num vejo faz muito tempo.

“Sou eu seo Chico Pança”, se apresentara Dudu de Antonio Félix.

Então chegue minino, chegue pra cá. Chute logo sua bola.

Chute com toda a força e sabedoria que vamicê tem no jogo de bola; mas chute ao contrário, viu!

Bola chutada em direção contrária ao gol da Ribeira e não ao da Boa Hora.

Jogo terminado sem gols, sem vencedor.

Todos em alegria; a festança continuou noite adentro, até madrugada alta, sem qualquer outro incidente.

Tonho do Paiaiáhttps://tonhodopaiaia.wordpress.com/author/tonhodopaiaia/
Relatos de “olimpíadas” no sertão – revivendo o passado
Salvador 18 de agosto de 2016
cropped-tonho001

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *