Complexo de vira-lata

Após um desempenho medíocre em Sydney, na Olimpíada de Atenas o desempenho do Brasil foi novamente vexatório no ano passada, e somente duas medalhas foram ganhas, por acaso.

Virou retórica de derrotado dizer que se aprende com as derrotas. Parece que serve a alguns, menos aos brasileiros que, com as derrotas, só aprendem a continuar perdendo.
Levam-se muitos atletas e poucos competidores. A grandeza da delegação só serve para imagens e reportagens de televisão, mas viajam turistas disfarçados de atletas, sem nenhuma condição real de competição.
Todos os segmentos sociais têm sua quota de responsabilidade pelos resultados pífios. A imprensa somente fala de outros esportes durante a realização dos jogos olímpicos e, ainda, de forma superficial. Depois, no dia-a-dia só se escreve sobre futebol. São cadernos inteiros de jornais falando apenas de jogadores, na grande maioria, também, ruins de doer, apesar de se tratar do único esporte praticado em todos os cantos do Brasil. Para popularizar os demais esportes, alguma publicidade precisaria ser dada, de forma gradual e permanente. Afinal, para se tornarem conhecidos precisam chegar ao público.
E mais. As reportagens deveriam apontar falta de espaços adequados e cobrar ações da iniciativa privada. Também deveriam parar com a cobertura com aceitação da choradeira brasileira, especialmente de que “sentiu o peso da responsabilidade”. Jovens de outros países ganham sozinhas e tranqüilas mais do que um País de quase 200 milhões de pessoas. Seria melhor que as nossas atletas fossem mais “irresponsáveis” e não sentissem tanta responsabilidade. Essa seria a parte de culpa dos atletas e da sociedade.
Já ao governo, primeiro deveria definir estratégias de incentivo real de esporte para competição, separando-o da prática por entretenimento. Nas praças e clubes públicos deveriam existir demarcações claras para cada modalidade.
Cada empresa poderia patrocinar algum atleta para representá-la nas competições, associando o nome da instituição ao esporte. Entretanto, a obrigação pela criação e coordenação de políticas gerais de esporte é do poder público.
À União e aos estados caberia o repasse de verba para a construção de ginásios, quadras, estádios, pistas de atletismo; enfim, de toda instrumentalização de maior porte, com vistas às competições internacionais onde a representação fosse em nome do país.
Já os municípios deveriam distribuir damas, tabuleiros de xadrez, redes e bolas de vôlei e de basquete nas áreas centrais das cidades e em vilarejos. Isso apenas para a inicialização de uma política de esporte bem mais ampla. Depois, tentar orientar para que cada comunidade se organizasse e passasse a arcar com a compra destes e de outros componentes adequados a cada esporte. No vôlei, por exemplo, as cotoveleiras, as joelheiras; nos demais esportes o que fosse necessário.
Criar campeonatos e torneios interestaduais, intermunicipais e nacionais de vários esportes seria imprescindível para a difusão do esporte. Cada município deveria realizar uma corrida, uma minimaratona. Sem isso, tudo não passa de boas iniciativas isoladas, sem metas traçadas. Assim, o Brasil continuará ganhando, vez ou outra uma medalhe de ouro, sempre em função da genialidade individual e nunca como resultado de política esportiva.
A imprensa, ao menos durante os jogos olímpicos, deveria associar o desempenho medíocre aos governantes. Nunca fazem essa ilação.
O pior: sempre que um atleta se destaca por esforço pessoal aceita o gesto hipócrita de subir a rampa do Palácio do Planalto para ser fotografado junto ao presidente. Também não precisa ocupar um carro oficial do corpo de bombeiros para desfile.
Salvo as derrotas em razão do secular complexo de vira-lata por ser brasileiro, portanto, de ser pequeno, os “turistas-atletas” são os menos culpados. E aqueles que superam todas as adversidades são geniais, mas deveriam se negar a subir a rampa, até para despertar as autoridades sobre o que não fazem.
O cidadão comum deveria pleitear essas ações das autoridades, sem condescendência, e de forma muito incisiva e de todas as formas possíveis.

Pedro Cardoso da Costa – Interlagos/SP
Bacharel em direito

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